História, mito e realidade: processos de longa duração.

Eu sou historiador. Adoro falar, escrever e ler sobre História. Acho que sem entender um pouco de História as pessoas são manipuladas. Daí a necessidade de se estudar História: entender o hoje, através da experiência do ontem. Nada se repete, mas por vezes se assemelha e há lições que se pode aprender e apreender da História.

Uma delas é a duração e permanência de certos conceitos e de certos mitos. Por vezes surgem numa época e estão relacionados com certa realidade. A realidade muda e as condições se alteram, mas as crenças e mitos permanecem. Além disso, criam-se estereótipos de certos grupos e minorias, para se estabelecer identidades e fidelidades. Um grupo majoritário receia a concorrência e o modelo diferente de um grupo numericamente inferior e distinto em certas coisas do grupo que predomina. Para impedir que este grupo minoritário concorra e obtenha adeptos no seio da maioria, trata de consolidar a identidade desta maioria. Para tal elabora críticas e cria preconceitos contra esta minoria.

Um destes casos, ocorreu entre a maioria cristã, associada ao poder imperial, no Baixo Império Romano e a minoria judaica, detentora de direitos de cidadania, anteriores aos obtidos pelos cristãos a partir de Constantino, em 313 d.e.c. Os judeus eram considerados uma religião tradicional e tinham status de minoria protegida: em Latim eram uma “religio licita” ou seja religião juridicamente legal. Isso impedia a Igreja de destruí-los e expulsá-los.

Daí a construção de duas vertentes de contenção da minoria segregada. A primeira seria a jurídica que limitava e restringia os direitos judaicos a um mínimo e que proibia inúmeras coisas. Uma desta era os casamentos exogâmicos entre judeus e cristãos, salvo nos casos em que o judeu se convertesse. Outro era a posse de escravos cristãos por judeus. Uma outra era que judeus tivessem posição de força, ou seja, poder político ou militar. Tudo isso e muito mais excluiu os judeus de muitos setores da vida social, política e econômica.

A segunda seria a contenção pela identidade e pela segregação. A maioria discrimina através da criação de uma imagem do OUTRO. O Judeu é o outro, ou seja, alguém diferente. Mas para minimizar sua atração, visto ser uma religião concorrente e que se outorgava a Revelação (entrega da Lei e escolha por D-us), deveria ser realocado na realidade. A boa convivência entre judeus e cristãos, ainda existia. Apesar da concorrência e de muitos choques e polêmicas, restava ainda muita gente dos dois lados que dialogava e convivia. Era preciso separar judeus do meio do mundo cristão e colocá-los na periferia da sociedade. Só a lei romana não bastava. A solução foi incutir nos judeus uma imagem de malignidade. Os Padres da Igreja (termo associado aos pensadores cristãos deste período) fizeram algumas coisas, mas nos fixaremos em duas destas: 1) através de uma releitura do texto sagrado (denominada exegese), trataram de dissociar os judeus da eleição por D-us e de sua condição de receptores e executores da Lei e da Revelação divina. Os judeus tinham sido substituídos pelos cristãos e tinham perdido sua promessa, por não terem acolhido o Messias; 2) a associação dos judeus com valores terrenos, carnais e mundanos e sua ligação como Demônio. Iniciava-se a demonização dos judeus.

O grande mentor desta visão da malignidade judaica em nossa opinião foi o bispo João Crisóstomo. Nasceu e viveu em Antioquia (na região da Síria). Pregador dotado de uma oratória aguda e agressiva, Crisóstomo (que em grego significa “boca de ouro”) soube associar os judeus com o Demônio. Seus adjetivos eram os piores possíveis: porcos, demônios, sensuais e carnais, glutões e insaciáveis. A Sinagoga foi associada a um prostíbulo. Possuo um artigo que versa sobre este tema, publicado no Boletim do CPA, da Unicamp (Campinas, SP). Mesmo se outros adotaram expressões menos agressivas, estavam influenciados pela retórica do bispo de Constantinopla.

A razão do bispo era a proximidade intima entre judeus e cristãos na cidade de Antioquia. Para evitar a influência judaica, visto haver cristãos que queriam guardar o sábado ou adotar a Kashrut (leis dietéticas judaicas), o bispo satanizava seus concorrentes e opositores. Assim forjava a identidade grupal cristã ao “diferenciar” e marcar os judeus através de sua malignidade. Distância dos judeus era uma atitude cristã adequada: evitar sua malignidade sua “carnalidade” que os fazia cultura o demônio.

Os mitos não pararam de surgir e se expandir. Muitos nunca desapareceram. São fenômenos de longa e média duração. A satanização dos judeus permaneceu adormecida por alguns séculos. Mas no século XIII, ressurge com todo vigor. Era o auge da Igreja Católica. As heresias surgiam no sul da França e em toda Europa. A mais forte e ameaçadora era uma heresia denominada albigense (ou cataros). Era dualista, ou seja, na sua visão do mundo havia dois elementos divinos: um D-us bom e espiritual e outro Mal e material. A seita albigense acusava a Igreja de ser a Igreja do demônio.

Outra heresia, denominada valdense, criticava a Igreja por ser rica e poderosa e contraria ao exemplo de Jesus e de seus apóstolos que eram humildes. Assim Igreja reagiu e partiu para ofensiva. Os albigenses foram perseguidos com duas armas poderosas; uma Cruzada contra eles iniciada em 1207 (a cruzada albigense no sul da França). E a instauração da Inquisição medieval no sul da França para “caçar” os remanescentes do massacre realizado pelos cruzados, contra seu ex-irmãos, agora heréticos.

O Diabo e os judeus foram considerados cúmplices, de tais acontecimentos. A calmaria já cessara com as Cruzadas (c. 1096- c. 1250), nas quais se mataram milhares de judeus e muitas comunidades foram destruídas. O que veio em paralelo, desde o início do século XI, foi uma sucessão de mitos antigos renovados ou ampliados.

O clássico mito do assassinato ritual, no qual os judeus são acusados de matar crianças para retirar seu sangue e fabricar matzot (pães ázimos da Páscoa judaica). O primeiro caso de acusação por crime ritual foi em Norwich (Inglaterra) por volta de 1070. O último foi no final do século XIX na Rússia czarista, mas foi refutado e o réu inocentado somente em 1903. O célebre caso Beilis retratado no filme “O homem de Kiev” que se baseia na obra de Bernard Malamud, de titulo “O bode expiatório”. O filme e o livro são da década de 60 e não fáceis de se achar.
O melhor exemplo de mito de longa duração são as teses conspiracionistas de que os judeus querem dominar o mundo. Fazem parte em algumas das literaturas anti-semitas e ainda circulam na imprensa de maneira impune: são mitos medievais de que os judeus querem acabar com o mundo cristão e são suspeitos, conspiradores e/ou revolucionários. Vejam um exemplo: “Os Protocolos dos Sábios de Sião”.

O mito central dos Protocolos seria o envenenamento dos poços pelos judeus. A obra denominada Protocolos, é uma fabricação do czarismo russo, montada por um monge denominado Nilus por volta de 1907. Esta obra é um plágio literário, como foi demonstrado num julgamento feito por um tribunal internacional em Genebra na Suíça, no final da década de 1930. Anatol Rosenfeld editou um pequeno livro no qual demonstra esta falsificação literária e relata a decisão do tribunal: “Mistificações literárias: os Protocolos dos Sábios de Sião”, editada pela editora Perspectiva. Já Norman Cohn tem obra traduzida ao português, denominada: “A conspiração mundial dos judeus: mito ou realidade? Análise dos Protocolos e de outros documentos”. A primeira edição deste livro é de 1969.

Os reais autores desta teoria viveram no século XIV, quando se definiu que os judeus pretendiam dominar o mundo associados aos leprosos e com apoio do Diabo e do Anticristo.
O fundador da fábrica de carros americana, Henry Ford, escreveu outro livro com a mesma tese. O livro de denomina “The internacional Jew”. Mantém a mesma tese que Hitler e outros nazistas mantinham: pura crença medieval. Alias o nazismo era um movimento de inspiração romântica (isso não tem nada a ver com romances de amor). Buscava sua raiz no Medievo: sua inspiração estética era clássica (Veja o filme “Arquitetura da Destruição” do Peter Cohen), mas sua inspiração ideológica e “mitológica” era medieval. O uso de fogo em e rituais noturnos, águias em estandartes, paradas e rituais de fidelidade ao Führer. Muito medieval.

O anti-semitismo tem parte de suas raízes nos mitos medievais. E vemos teses neonazistas e revisionistas que são “remakes” de mitos e crenças medievais, por vezes travestidos de pseudociência racial e arianismo. Pura ficção: no âmago da questão temos crenças medievais e antigas que são de longa duração. Até o ódio a Israel, apresenta por vezes conotações associáveis a algumas destas crenças e mitos medievais. A malignidade não se desprendeu de nós, desde Crisóstomo e de outros Padres da Igreja.

Chegará o dia em que poderemos ser visto como somos? Apenas seres humanos dignos de respeito e de dignidade. SOS Racismo.

* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.

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