A História Secreta da Guerra de Suez

Há 50 anos, no dia 22 de outubro de 1956, um senhor de baixa estatura, cabelos brancos revoltos, olhar incisivo e passo firme, chegou incógnito e em missão secreta a uma bela vila localizada em Sèvres, imediações de Paris. Acompanhavam-no dois jovens: Moshe Dayan e Shimon Peres, servidores de total confiança do governo de David Ben Gurion.

Os três iam ao encontro de líderes da França e da Inglaterra para discutir um plano militar através do qual o Estado de Israel e mais aqueles dois países se uniriam numa operação militar destinada a conter os ataques terroristas provenientes do Egito e garantir a passagem de navios pelo canal de Suez, nacionalizado pelo ditador egípcio, Gamal Abdel Nasser, três meses antes.

No decorrer das semanas precedentes, franceses e ingleses já haviam mantido conversações a esse propósito. Os franceses estavam francamente dispostos a empreender tal ação. Em Londres, embora favorável à idéia, o primeiro-ministro Anthony Eden encontrava forte reação contrária por parte de seu gabinete, sobretudo de Selwin Lloyd, ministro das relações exteriores. Depois de muitas discussões, de idas-e-vindas, Eden e Lloyd, também incógnitos, já se haviam reunido em Paris com o primeiro-ministro Guy Mollet e com o chanceler Christian Pineau. O plano francês previa as seguintes etapas: primeiro, Israel lançaria um ataque contra o Egito e, depois, França e Inglaterra interviriam para apartar o conflito, ao mesmo tempo em que garantiriam a posse do canal de Suez. Em Jerusalém, Ben Gurion via aquela movimentação com bons olhos. Seria interessante para Israel aliar-se àquelas duas potências, embora o primeiro-ministro desconfiasse dos ingleses, em geral, e de Anthony Eden, em particular. Aos mais íntimos, Ben Gurion referia-se à proposta da ação militar somente como o "plano inglês", de forma desdenhosa, como se os franceses não estivessem participando. Por outro lado, ele repelia a idéia de que Israel viesse a lhes servir como tropa de aluguel e anotou em seu diário: "Acho que o plano dos ingleses tem como finalidade complicar-nos com Nasser, enquanto sua real intenção é fazer o Iraque conquistar a Jordânia".

Foi por insistência de Guy Mollet que Ben Gurion decidiu viajar para Paris com Moshe Dayan, chefe do estado-maior das forças armadas de Israel, e Shimon Peres, secretário-geral do ministério da defesa. Em Sèvres, a delegação francesa era composta pelos mais altos membros do governo, todos antigos resistentes contra a ocupação nazista, e que viam Nasser como um perigo em potencial principalmente por causa do apoio que dava aos rebeldes argelinos, então em luta contra o poder colonial francês. Os franceses julgavam que a queda de Nasser teria como conseqüência o fim das insurgências na Argélia.

A primeira discussão entre os israelenses e os franceses começou às quatro da tarde do dia 22 de outubro. Ben Gurion foi o primeiro a falar. Enumerou suas considerações políticas, militares e morais sobre o "plano inglês" e argumentou sua principal objeção: tal como o plano havia sido concebido, Israel assumiria o papel de agressor, enquanto França e Inglaterra avultariam como protetores da paz. A par disso, estava apreensivo com a possibilidade de a força aérea egípcia vir a bombardear as principais cidades israelenses, causando mortes civis. E foi além, apresentando um plano que, conforme ele mesmo qualificou, talvez julgassem fantástico, mas que no seu entender era viável. Sugeriu que a Jordânia fosse dividida, de modo a acomodar numa porção demarcada de seu território os refugiados palestinos, enquanto a Margem Ocidental seria uma área semi-autônoma. Como o Líbano enfrentava constantes problemas com sua população muçulmana concentrada no sul do país (situação que até hoje perdura), Israel avançaria sua fronteira até o rio Litani, de modo a favorecer a estabilidade dos libaneses cristãos. O canal de Suez ficaria sob jurisdição internacional, enquanto os estreitos de Tirã, no golfo de Ácaba, estariam sob controle de Israel para assegurar o direito de passagem de suas embarcações. Assim, a França consolidaria sua influência no Oriente Médio a partir do Líbano, além de se beneficiar com a queda de Nasser com vistas à questão da Argélia, e a Inglaterra reconquistaria sua influência no Iraque e na Jordânia, assegurando pleno acesso ao petróleo iraquiano. Ben Gurion acrescentou que os Estados Unidos decerto estariam propensos a apoiar esse plano porque serviria para lhes proporcionar regimes estáveis e pró-ocidentais no Oriente Médio, isolando as pretensões e investidas da União Soviética naquela região. Porém, a precondição para a ação militar seria a exclusão de Nasser e a instalação de um governo democrático no Egito, que, em seguida, faria a paz com Israel.

A delegação francesa ouviu com paciência a longa exposição do primeiro-ministro israelense mas, desde logo, deixou claro que não pretendia ir tão longe. Convenceram Ben Gurion de que sua preocupação básica era no sentido de lançar uma campanha para abrir o canal de Suez, contando com o envolvimento da Inglaterra, mesmo sob a provável objeção dos Estados Unidos. Ben Gurion alimentava a esperança de poder discutir o assunto diretamente com Eden, mas o primeiro-ministro britânico recusava qualquer encontro com o líder de Israel. Por isso, no dia seguinte, despachou Selwyn Lloyd, seu ministro das relações exteriores, para Sèvres, onde este participaria de uma reunião com as outras duas partes interessadas. Conforme os franceses previam, foi péssima a atmosfera entre ingleses e israelenses. Moshe Dayan escreveu anos depois: "O chanceler britânico tinha a fama de ser uma pessoa amigável, agradável e charmosa, mas ele foi um verdadeiro gênio em conseguir ocultar todas essas virtudes. Seu comportamento não poderia ter sido mais antagônico e sua conduta expressava aversão". E o próprio Lloyd anotou em sua memórias: "Ben Gurion me pareceu bastante agressivo, indicando que os israelenses não tinham como acreditar em nada que um ministro inglês dissesse". Na verdade, Lloyd hesitava em tomar qualquer atitude que resultasse num conluio com Israel para uma ação militar, mesmo porque afirmava estar prestes a encontrar uma solução negociada com o Egito sobre o canal, em uma semana, no máximo.

Entretanto, se o ataque viesse a ser aprovado, Israel deveria combater sozinho durante 72 horas, após as quais a França e a Inglaterra emitiriam um ultimato e entrariam no cenário para apaziguar o conflito. Era precisamente o que Ben Gurion não queria: que Israel assumisse a condição de agressor, só admitindo a possibilidade de os três países agirem em conjunto. Exigiu, ainda, que a força aérea britânica, antes de mais nada, inutilizasse a força aérea do Egito. A reunião ia terminando sem que as partes chegassem a um acordo quando Ben Gurion fez nova proposta.

A idéia partira de Moshe Dayan, que estava preocupado com as constantes incursões dos fedayn (comandos terroristas) egípcios ao sul de Israel e, mais preocupado ainda, com a aquisição por parte de Nasser de pesados armamentos, na Tchecoslováquia. Segundo seu plano, Israel justificaria seu ataque como uma válida e indiscutível retaliação àquelas incursões e se posicionaria perto do canal para propiciar uma intervenção inglesa, que, logo de início, bombardearia as bases aéreas do Egito. Lloyd respondeu que precisava consultar Eden. Temendo que ele apresentasse os fatos distorcidos na Downing Street, Pineau decidiu acompanhá-lo.

Na terça-feira, dia 23 de outubro, a atmosfera em Sèvres entre franceses e israelenses estava bem mais informal e relaxada, com os primeiros se esforçando ao máximo para encontrar uma solução satisfatória. O general Challe, vice-comandante do estado-maior da França, sugeriu que Israel encenasse um ataque aéreo do Egito contra a cidade de Beersheva, de modo a justificar o ataque israelense e a intervenção franco-britânica. Ben Gurion reagiu de forma rude: "Não posso mentir para o mundo". Para amenizar o mal-estar decorrente, o ministro da defesa francês Bourgès-Manoury ofereceu forças navais e aéreas para proteger a costa e o espaço aéreo de Israel. Ben Gurion estava inclinado a aceitar porque lhe interessava, sob todos os aspectos, uma sólida aliança com a França. Mais uma vez, o lado pragmático coube a Moshe Dayan. Uma elite de pára-quedistas israelenses ocuparia o estratégico Passo de Mitla, bem ao sul do deserto do Sinai, a cerca de quinze quilômetros do canal de Suez, ao mesmo tempo em que uma brigada de tanques se movimentaria naquela direção. Seria um ato explícito de guerra e um pretexto aceitável para uma intervenção franco-britânica, decorridas 36 horas daquele ataque. Ben Gurion achou conveniente que Pineau embarcasse para Londres com aquela proposta, pois estava certo de que, se ele ali chegasse de mãos vazias, o encontro de Sèvres resultaria em absoluto fracasso.

Naquela noite, na capital da Grã-Bretanha, Lloyd e Pineau encontraram-se com Anthony Eden e se trancaram numa reunião, sem testemunhas, que demorou longas horas. O ministro Anthony Nutting, membro do gabinete, revelou anos mais tarde que, conversando com Lloyd, no dia seguinte, soube que Eden dissera a Pineau que sob hipótese alguma deixaria Israel "no sereno" e que um ataque no Sinai contaria com seu apoio. Agastado, Lloyd preferiu não voltar a Sèvres e indicou para substituí-lo Patrick Dean, seu sub-secretário.

Às seis horas da manhã do dia 24 de outubro, Dean foi recebido por Anthony Eden, que lhe explicou a dimensão através da qual Nasser prejudicava os interesses do país, no Oriente Médio, e enfatizou que a Inglaterra só se mobilizaria se, de fato, Israel atacasse no Sinai. Dean chegou a Sèvres sob segredo, naquele mesmo dia. Nesse terceiro dia dos encontros, Ben Gurion, após longa reflexão solitária, finalmente decidiu engajar as forças israelenses no combate, insistindo, porém, em obter as mais firmes garantias de que a força aérea egípcia seria neutralizada. Seu objetivo primordial, conforme escreveu em suas memórias, era o afastamento definitivo de Nasser: "Tratava-se de uma oportunidade única. Duas nações, longe de serem pequenas, tentariam a derrubada de Nasser, e nós não ficaríamos sozinhos, na medida em que ele ficava cada vez mais forte e poderia obter a adesão de todos os países árabes". Ainda cedo, no jardim da vila, chamou Peres e Dayan e pediu que este delineasse o plano de ocupação do Passo de Mitla, conforme sua sugestão. Como não havia papel disponível, Peres pegou o verso do invólucro laminado de um maço de cigarros e nele Dayan traçou um mapa rudimentar do Sinai, detalhando os procedimentos que implementaria.

Ben Gurion, então, tirou um papel do bolso, que continha uma enorme lista de perguntas que formulou a Dayan. Queria todos os pormenores sobre quando, como e onde a ação seria realizada. Às três da tarde, Pineau regressou de Londres e a discussão foi retomada. O chanceler francês informou que Eden estava de acordo com uma agenda de seis itens, na linha anteriormente proposta por Dayan. Às quatro e meia da tarde, Patrick Dean chegou a Sèvres e as conversas bilaterais tornaram-se de imediato trilaterais. Ben Gurion acrescentou mais um ponto: parte alguma obstaria a ocupação israelense do estreito de Tirã, pois este representava para Israel o mesmo que o canal de Suez significava para a França e a Inglaterra. Dean quis saber se Israel emitiria uma declaração de guerra formal contra o Egito. Ben Gurion respondeu que as violações do armistício de Rodes (celebrado em 1949) por parte do Egito eram tão freqüentes que tornariam supérflua uma declaração de guerra. Quando Dean pediu a Dayan que lhe exibisse o plano do ataque a Mitla, Dayan limitou-se a lhe mostrar o papel do maço de cigarros, esquivando-se de expor qualquer segredo militar. Em seguida, Ben Gurion sugeriu que fosse redigido e assinado um protocolo sobre a reunião, o que foi feito em francês, então o idioma da diplomacia internacional.

Nos preparativos para a guerra, do lado francês foram mobilizados 34 mil homens e 30 navios de guerra. Do lado inglês, 45 mil homens e 200 navios de guerra. O plano consistia em ocupar a localidade de Port Said para depois avançar na direção do Cairo. A operação foi codificada como Mosqueteiro, em alusão ao romance "Os Três Mosqueteiros", de Alexandre Dumas. No dia 29 de outubro de 1956, o ministério das relações exteriores de Israel emitiu uma declaração para a comunidade internacional, na qual dizia: "Israel tomou as medidas necessárias para destruir as bases dos fedayn na Península do Sinai. Essas unidades, organizadas há dois anos pelo governo egípcio, têm cometido atos de terror, assassinatos indiscriminados, colocado minas terrestres e empreendido atos de sabotagem.

O coronel Nasser vem declarando de forma persistente que, apesar dos artigos previstos no tratado de armistício, seu país se encontra em permanente estado de guerra contra Israel". Às duas e quinze da manhã daquele mesmo dia tinha sido iniciada a Operação Kadesh, destinada à ocupação do Passo de Mitla, enquanto o embaixador Abba Eban viria declarar, à tarde, perante a Assembléia Geral das Nações Unidas: "No decorrer dos últimos seis anos, registramos 1.339 casos de confrontação militar provocados pelo Egito, 435 ocorrências de incursões terroristas em nosso território e 172 atos de sabotagem. Como resultado das hostilidades egípcias dentro do Estado de Israel, 364 israelenses foram mortos e 101 feridos".

Naquele dia, dezesseis aviões israelenses do tipo Douglas C-47 decolaram rumo ao sul, voando o mais baixo possível, protegidos por dez jatos de combate. Às cinco da manhã, saltaram sobre Mitla os primeiros 395 pára-quedistas, onde se postaram à espera da brigada de tanques comandada pelo general Ariel Sharon, que cruzava o Sinai. Em seguida, enormes aviões de carga lançaram sobre Mitla, com pára-quedas, jipes, armas e suprimentos. Ao mesmo tempo, três destróieres franceses fundearam na costa israelense, protegendo Tel Aviv e Haifa. No dia 30 de outubro, França e Inglaterra emitiram um ultimato, com prazo até as quatro e meia da manhã do dia seguinte, para que os israelenses detivessem suas forças terrestres a, no máximo, cinco quilômetros do canal de Suez. Conforme o plano, Israel aceitou o ultimato e, conforme esperado, o Egito o rejeitou, na medida em que contra-atacava com redobrado empenho. Na noite de 31 de outubro para 1o de novembro, a armada de invasão franco-britânica partiu da ilha de Malta e da Argélia. Antes que o prazo do ultimato expirasse, começaram as batalhas navais. A fragata egípcia Ibrahim Al-Awal, que disparava contra Haifa, foi aprisionada e, mais tarde, incorporada à marinha israelense. O cruzador inglês Newfoundland afundou a corveta egípcia Damietta nas imediações do canal de Suez. De madrugada, aviões ingleses do tipo Canberra e Vickers decolaram de Malta e da ilha de Chipre com a missão de bombardear as bases militares aéreas do Egito, no que foram bem sucedidos, ao mesmo tempo em que as forças navais impediam que navios egípcios bloqueassem a entrada do canal. No dia 2 de novembro o Egito concordou com um cessar-fogo proposto pelas Nações Unidas. Instigado pela França e Inglaterra, Israel o rejeitou porque, se aceitasse, desmoronaria todo o plano de invasão. Na recusa, Ben Gurion apresentou uma série de condições que sabia que não seriam acolhidas. Seguindo o plano da Operação Mosqueteiro, pára-quedistas franceses e ingleses saltaram sobre o território egípcio a pouco menos de dois quilômetros de Port Said. A vitória dos invasores estava assegurada, enquanto Israel reforçava suas posições no deserto do Sinai.

Na arena política internacional, as coisas ferviam. O líder russo Nikolai Bulganin mandava mensagens frenéticas para Londres, Paris e Tel Aviv, formulando as mais sinistras ameaças e dizendo, inclusive, que a ação em Suez estava colocando o mundo à beira de uma terceira guerra mundial. Entretanto, tudo não passava de blefe. Os soviéticos estavam excitados com o desenrolar dos acontecimentos porque estes colocariam Moscou como atento aliado dos países árabes e distrairia a atenção mundial para a brutal repressão cometida, semanas antes, durante a revolução na Hungria. Eis o trecho de uma carta enviada por Bulganin a Ben Gurion: "Nós apelamos ao senhor, ao seu parlamento e ao povo trabalhador do Estado de Israel que parem com a agressão, que parem com o derramamento de sangue, que retirem suas tropas do território egípcio. Instruímos nosso embaixador em Tel Aviv a regressar imediatamente a Moscou. Esperamos que o governo de Israel entenda bem e considere esta advertência". Final da resposta de Ben Gurion: "Para concluir, estou constrangido, surpreso e decepcionado com a ameaça à existência de Israel contida em sua carta. Nossa política externa é ditada por nossas necessidades essenciais e por nosso desejo de paz. Assim, não será decidida por nenhum fator externo. Na qualidade de estado soberano, unimo-nos a todos os povos amantes da paz e lutamos por justiça em nossa região e no mundo inteiro". Os protestos soviéticos foram seguidos por objeções dos Estados Unidos, porém a sério. O presidente Eisenhower, inconformado por não ter sido avisado dos planos de invasão, começou a pressionar Londres e Paris para que cessassem suas atividades militares. As duas potências concordaram depois de asseguradas de que não haveria obstáculos para a passagem de seus navios pelo canal de Suez, a partir do ano seguinte, condição não aplicada às embarcações israelenses.

No dia 7 de novembro, numa carta dirigida a Ben Gurion, o líder americano escreveu: "É nossa convicção, com máxima prioridade, que a paz deve ser restaurada e que todas as tropas estrangeiras, exceto as das ONU, sejam evacuadas do Egito. Em seguida, novos e enérgicos passos precisam ser tomados no contexto das Nações Unidas para resolver os problemas que deram origem às presentes dificuldades". Ben Gurion respondeu: "Sua declaração no sentido de que uma força das Nações Unidas seja enviada ao Egito, de acordo com a resolução da Assembléia Geral, é bem-vinda por nós. Jamais planejamos anexar o deserto do Sinai. Portanto, tomaremos as necessárias medidas junto às Nações Unidas no que concerne a criação dessa força internacional e retiraremos nossas tropas". A decisão do primeiro-ministro baseava-se nas garantias que lhe haviam sido dadas pela Casa Branca de que uma força internacional da ONU (da qual o Brasil participou com o Batalhão Suez), protegeria Israel dos comandos terroristas e que não haveria problema quanto à liberdade de navegação pelo estreito de Tirã. Mesmo assim, apesar do sucesso militar alcançado por Israel, que ocupou a faixa de Gaza, a maior parte do Sinai e chegou até Sharm El Sheik, ao sul de Eilat, Ben Gurion estava deprimido por causa das mortes de 231 militares. Antes de abandonar o Sinai, incluindo a faixa de Gaza, ele compareceu perante o parlamento e apresentou uma declaração de sete pontos estipulados "com absoluta força moral e inabalável determinação", conforme suas próprias palavras:

(1.) O armistício com o Egito não mais existia e não podia ser restaurado.

(2.) Como conseqüência, as linhas do armistício ficavam desprovidas de validade.

(3.) Não havia qualquer disputa entre o povo de Israel e o povo do Egito.

(4.) Não queremos que nossas relações com o Egito permaneçam neste estado anárquico e estamos dispostos a empreender negociações diretas, sem precondições, de parte a parte.

(5.) Esperamos que todos os povos a favor da paz apóiem nossa intenção de negociações e, mesmo que estejam despreparados para a obtenção de uma paz permanente, que observem os acordos de armistícios. É o que Israel fará.

(6.) Sob nenhum pretexto Israel concordará com a existência de forças militares estrangeiras em seu território.

(7.) Israel não lutará contra nenhum país árabe, nem mesmo contra o Egito, a não ser que seja atacado.

A guerra do Suez durou apenas sete dias, tendo culminado com a retirada do Egito das forças militares de Israel, da França e da Inglaterra no início de janeiro de 1957. Como resultado do conflito, o ditador Nasser tornou-se o herói do mundo árabe, passando a promover o conceito do pan-arabismo. Expulsou 25 mil judeus do Egito e confiscou suas propriedades, encarcerou sem julgamento outros mil judeus, nacionalizou empresas inglesas e francesas estabelecidas no país, fortaleceu-se no poder e alinhou-se com a União Soviética, de quem recebeu toneladas de armamentos e centenas de tanques e aviões de combate destinados a continuar sua luta contra Israel.

*Zevi Ghivelder é escritor e jornalista

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